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Já nem me conheço

quinta-feira, setembro 05, 2019

La Alhambra, Granada  Spain (by Nacho Coca)


Hotel Belvédère by www.raegi.ch

Bairro Alto | Lisboa


"Choro sempre quando os dias terminam, porque sei que não nos procuraremos pelas noites."
Caio Fernando Abreu

Envelheceram juntos, o amor acompanhou os passos lentos, a vagareza que a vida foi pedindo, a demora no fazer as coisas cotidianas… envelheceram o amor, com todos os cuidados que ele pedia, sem perde-lo nas esquinas da casa, sem descuidar da sua fome, que mudava de cor, mudava de som, mudava suas faces…
O amor não necessitava de grandes arroubos, daqueles movimentos onde a gente não pensa, ali, quietinho, sem pressa, pedia mudanças de hábitos. Ele, cuidando dos remédios dela, nos horários certos, como se mantendo sua saúde, garantisse uma partida mais tardia, garantisse presença eterna.
Caminhavam juntos, se amparando, nas ruas da cidade. Um caminhar lento, pras coisas programadas da vida. Assim, enganchados, seguiam pra igreja, pra um almoço ou uma viagem.
Ele cuidava do café. De manhã adentrava o quarto, café quente, despertando seu amor, uma de suas primeiras tarefas. Ela cuidava do arroz, soltinho, como ele gostava.
E o amor se manteve ali, nos cuidados rotineiros, como se reverenciasse as rugas, o envelhecimento, sem brigar com as coisas do tempo, que chega e pede outras formas de viver.
Medo? Tinham, mas de se perderem na partida não escolhida, dessas que um dia a gente acorda e falta alguém ali, no quarto, no café, nas andanças. Quem iria antes? Se amavam nas delicadezas e miudezas, em paz com a vida e, por isso, temiam…

Lisbon, Portugal | Nuno Trindade Photography

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?
Cecília Meireles




domingo, setembro 01, 2019




Longe de ti

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio tristemente,
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.

6. Olavo Bilac - Rio de Janeiro