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Já nem me conheço

quarta-feira, maio 02, 2018

Sol do Meu Dia
Se eu fosse nuvem tinha imensa mágoa 
Não te servindo de asas maternais 
Que te pudessem abrigar da água 
            Que chovesse das mais! 

E sendo eu onda, tinha mágoa suma 
Não te podendo a ti, mulher, levar 
De praia em praia sobre a alva espuma, 
            Sem nunca te molhar! 

E sendo aragem eu, que pela face 
Te roçasse de rijo alguma vez 
Que o Senhor com mais força respirasse... 
            Que mágoa imensa... Vês? 

E a luz do teu olhar que me não luza 
Um rápido momento a mim sequer, 
Como a águia no ar, que passa e cruza 
            A terra sem na ver! 

Mas que me importa a mim! Se me esmagasses 
Um dia aos pés o coração a mim, 
As vozes que lhe ouviras, se escutasses, 
            Era o teu nome... sim; 

O teu nome gemido docemente, 
Com toda a fé de um mártir em Jesus. 
Se acaso já em Cristo pôs um crente 
            A fé que eu em ti pus! 

A fé, mais o amor! Porque ele expira 
Sem que a ninguém lhe estale o coração; 
E eu, se essa luz dos olhos me fugira, 
            Sobrevivia? Não. 

Assim como em ti vivo, morreria 
Também contigo, se uma vez (que horror!) 
Te visse pôr, ó Sol!... Sol do meu dia! 
            Astro do meu amor! 

João de Deus, in 'Campo de Flores'

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